A polémica
gerada pela proposta, por parte da JSD, da realização de um referendo
relativamente à possibilidade de co-adopção por casais homossexuais apagou, em
grande parte, a discussão referente à escolaridade obrigatória, que a JP
afirmou pretender encurtar. Desejo retomar tal debate, não pelo gosto da
altercação, mas por acreditar que a educação é um tema que deve estar sempre presente
no horizonte de qualquer comunidade política.
Qualquer
sociedade ou arranjo social, por mais simples que seja, integra,
necessariamente, mecanismos de transmissão de língua, costumes, saberes e
outros elementos culturais. Da mesma forma, também hoje é observável, entre a
maioria dos povos, a adopção do dispositivo de instrução e educação a que nos
referimos como escolaridade.
A
transmissão realizada por essa instituição enfoca-se, maioritariamente na
manutenção e reprodução dos modelos político, económico e social vigentes bem
como das relações de poder nas quais estes assentam.
Ao longo do
seu percurso escolar o aluno é introduzido a uma lógica social construída segundo
valores de dominação e coerção: o autoritarismo do
professor; a disciplina militar; a uniformização dos ritmos e saberes; os
castigos e humilhações.
Devido a uma
prolongada exposição a estes mecanismos disciplinares do sistema educativo
(análogos aos da fábrica, prisão ou quartel), o jovem saído da escolaridade
obrigatória está preparado para se submeter ao capitalismo, à democracia
representativa, à sociedade de consumo-espetáculo e a uma pluralidade de
micro-fascismos e relações assimétricas com as quais se deparará ao longo da
vida. Fabricam-se, assim, cidadãos submissos,
trabalhadores acríticos, expectadores passivos.
Rui Coelho
Licenciado em Ciência Política pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas
Rui Coelho
Licenciado em Ciência Política pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas
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